Coisa de Mulandi

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O que acontece quando um cara, saído diretamente da Suíça, chega no continente dos Mulandi, na África negra? Dê uma olhada no post do Luiz pra imaginar…

Apesar de toda a miscigenação racial e a assimilação cultural resultante do período colonial, é muito evidente uma grande divisão entre a cultura negra e a dos colonizadores europeus nos países africanos. Apesar de poucas vezes ter ouvido rotulações racistas do tipo “coisa de preto” ou “coisa de branco”, essas diferenças existem e, arrisco dizer, convivem muito bem em Moçambique.

Logo nas primeiras semanas após minha chegada, fiz uma viagem de trabalho a Uganda, onde tais observações ficaram ainda mais inevitáveis. Minha intenção não é fazer nenhum juízo de valor ou comparar culturas. Quero apenas evidenciar grandes diferenças e suas origens.

Como já disse antes, uma das coisas mais marcantes na África é a enorme diversidade de "dialetos" e o domínio que os nativos possuem dessas falas, na maioria das vezes aprendidas apenas oralmente. Ao longo de minha jornada pelo continente, tive contato com dialetos, dos que me lembro, como changana, macua, masai, suazi, tsonga, afrikaans, kiswahili, buganda, ateso, kuman, lani e lingala.

E a mesma diversidade vale para as línguas ocidentais, que ganham acréscimos especiais, como no português de Moçambique: mola = dinheiro, mata-bicho = café da manhã, e estou busy = estou ocupado.

58a-coisa-de-mulandiA arte em Moçambique é muito vasta, com esculturas em pau preto e sândalo, pinturas a óleo, batiks e, infelizmente também, marfim de elefante. O povo adora batuques e cantigas de roda. Pessoalmente, aprender o amatuê-tuê e chomela skoci foi um dos meus momentos mais felizes. Em Uganda, destaque para variações do batik, para os trabalhos incríveis com fibras de plantas, como côco, bananeira e o bark cloth, com o qual se faz artesanato e até roupas. Esquetes musicadas são típicas daquela região.

Mas é nos costumes tribais que você aprende coisas intrigantes. Em algumas províncias do centro e do norte de Moçambique impera uma tradição de que, quando um homem morre, a viúva fica para o seu irmão.

Em diversas regiões da África, a prática de casamentos arranjados em troca de um dote é muito comum. No Moçambique, o “lobolo” é feito por uma negociação de mercadorias e presentes. Em Uganda, aprendi que a “gova” é determinada pela circunferência de uma corda amarrada na forma de um círculo: o requerente recebe a porção de gado que dentro dela couber.

58b-coisa-de-mulandiFoi nessa viagem que uma destas diferenças culturais me atingiu de forma mais surpreendente. Estávamos reunidos em um hotel com funcionários de vários países, inclusive da África francófona, com quem não havia tido contato. O grupo de rapazes e moças do Benin, Serra Leoa, Sudão e Chad, de forte influência muçulmana, tinham o hábito de andar de mãos dadas, mesmo entre os homens. Isso é, para eles, um mero sinal de amizade e de respeito. Eu achava aquilo interessante, curioso.
Depois de alguns dias, saímos do hotel em direção a um restaurante e, ao atravessarmos a rua, o Ben, um camarada do Chad e com quase dois metros de altura, agarra minha mão e praticamente “me leva” com ele. Imagina a cena: eu de mãos dadas com um homem, atravessando a rua.
O que eu podia fazer? O que iria dizer? Até hoje não tenho uma resposta. Aceitei o gesto e ponto!

(Luiz)

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